CAIU A FICHA, A REALIDADE É OUTRA…

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Abraham B. Sicsú (APC, cadeira #21)

“Os sentimentos são muito concretos, reais. As personagens fictícias…ou não????”

Eu mesmo

Dois anos são passados. Saí por motivos que ainda não revelo. Gostava do que fazia, mas tinha que parar. Minha real aposentadoria tinha chegado. Diferente das outras duas anteriores, era real e irreversível.

Uma palestra de pessoa que admiro, com muito interesse vou assistir. O palestrante faz todas as loas para as autoridades e personalidades presentes e aproveita para uma leve estocada irônica neste amigo que não está mais em evidência. Sei que foi involuntário, que não tinha nenhum interesse em me atingir. Apenas um apoio para uma tirada que poderia ser engraçada, na opinião dele. Fico triste num primeiro momento, em seguida, motivo para me autoquestionar os caminhos que venho trilhando, os objetivos e o que estive procurando.

Faz dois anos que consciente, ou inconscientemente, procuro ter atividades, estar um pouco em evidência. Como se a notoriedade me mantivesse presente, desta motivação à vida. Perdê-la foi um baque, o medo do isolamento e esquecimento presente. Como se pudesse estar influenciando sem nenhum poder decisório. Rei posto, rei morto. Não percebi que o vazio não poderia ser preenchido pelo mesmo que fazia antes, que a dinâmica da vida ignora quem não participa ativamente de seus contextos. Sonhar em ser escutado, num mundo em que a concorrência é atroz, em que a experiência acumulada pouco tem a dizer frente a cenários mutantes, em que jovens precisam se firmar, um sonho difundido, uma prática muito remota. Na nossa sociedade, o velho (experiente) pouco é escutado, quase sempre ignorado.

Não adianta escrever textos atuais e até provocativos, participar de comissões, dar umas poucas aulas, ou ter grupos de estudo, apenas. Somos elemento do passado, de uma época que em pouco tempo se tornou distante.

Fizemos um grupo de ZAP, com dois amigos. Pessoas muito queridas e admiradas. De uma sagacidade ímpar. Não estou sabendo aproveitá-los. Nossa união se dá pelo afeto, não propriamente pela convergência de ideias. Sinto-as presentes, mas, cada vez mais procuro não discutir e entrar em polêmicas. Medo de perder os amigos. Dos poucos que me restam, dos poucos que admiro. Talvez as polêmicas, quem sabe, os fariam mais presentes.

Duas amigas queridas. São brilhantes, mentes sempre atentas, muito a contribuir. No entanto, aposentaram-se. Da mesma forma, procuram estar no foco dos debates. São respeitadas, mas, a sensação que tenho, também ignoradas. Sinto uma amargura na percepção de que poucos as levam em consideração. Tanto a dizer, à margem da sociedade. Suas sinas, cuidar da saúde, dos netos queridos e desejar com fervor que se erre menos. Nem se aproximar dos amigos que tanto as admiram, o fazem com frequência. Tanto têm para contribuir, pessoas mais que lúcidas que poderiam dar um grande contributo nesse momento de crise…se lhes ouvissem.

Um grupo de classe média. Todos bem-sucedidos. Assumem serem vanguardistas, com visões e proposições para uma nova dinâmica. Não discuto com eles, a base do pensamento é a mais reacionária e conservadora, na minha opinião. Uma falsa moral, repudiam e ignoram tudo que se evoluiu em anos recentes atribuindo todas as mazelas atuais a um grupo político apenas, sem um mínimo de crítica aos que mais se beneficiaram, dos quais dependem suas polpudas consultorias.

Não abrem mão de nada em prol do coletivo, mas usam as palavras de maneira brilhante, dizendo defender os desfavorecidos, quando, na prática, defendem apenas os interesses dos poderosos, dos detentores do capital. Leio e não me manifesto. Afinal, já saí de quase todos os grupos a que pertencia, romper relações só aumenta meu isolamento. Em certa idade, é mais importante conviver do que debater, evita o distanciamento do mundo já não tão presente.

Vamos aos velhinhos. Foram a elite intelectual da região, suas contribuições são muito importantes. No entanto, o tempo os distanciou, o ostracismo chegou. Esquecidos, buscam sobrevivência. Fazem parte de uma academia, bom número de aposentados. Muita respeitabilidade, pouca ação prática. O dia inteiro têm que ocupar. Criam grupos na mídia. Para manter a autoestima, a empáfia de gente que se acha importante. Visões as mais esdrúxulas.  O seu único divertimento polemizar e polarizar as visões. Nas quais jamais admitem estar errados. Se esforçam tanto que sempre caem no vulgar, parece briga de vizinhos ou de meninos de colégio. Os que não conhecem suas histórias podem até ridicularizar, mantenho o respeito e saio da mídia em sinal de reverência a tudo que fizeram.

Restam-me poucos que se lembram de algo que fiz ou que têm carinho por quem sou. Que, vez em quando, ligam-me. Que procuram saber de detalhes, de como estou, da minha saúde. Gente que ainda me cerca, que considera ser importante não deixar que se apague a chama de vida que um dia os ajudou a se iluminarem ou que com eles dividiu esperanças. Mesmo que tenha sido uma lamparina com muito pouco querosene. Mas, como disse são poucos e lhes sou muito grato.

A família é o alicerce. Meus filhos me dão sugestões. Minha companheira, com a calma de quem leva a vida em karmayoga, procura amenizar a situação e as constantes quedas de ânimo que apresento. Domingo é momento feliz, vendo meu neto de longe, crescendo, o provoco e ele tem humor para me ignorar com tiradas sempre carinhosas.

A palestra me fez cair a ficha. Por que procurar aquilo que não é mais possível? E, mais, conscientemente eu não desejo. Não pretendo voltar à lida do trabalho, nem tampouco disputar espaços em um mundo competitivo. Ser ignorado pelos queridos que ainda procuram galgar posições, ser ironizado na frente dos outros, pouco devia me abalar. Infelizmente, abalou, mas, também, fez com que percebesse que o caminho é outro. E a busca começou.

Tomei a primeira dose da vacina. A segunda está muito perto. Tenho disposição para novas empreitadas. Procurar novos caminhos se faz necessário. Sistematizar minhas leituras, a literatura continua me fascinando, abrir novos horizontes.

Acabo de fazer uma inscrição. Num curso na Argentina. Virtual, evidentemente. O Problema da Verdade, desde os pré-socráticos até Nietsche, Espinosa, Marx e Hegel. Doze aulas, uma a cada semana. Minha motivação atual. Algo que faz tempo não faço, mas que em outras palavras pode ser traduzido por conhecimento, busca da serenidade e novo desafio. Estou empolgado. Este é um rumo que vou tentar.

Minhas práticas de yoga, meu grupo de estudo de Conjuntura, as delícias culinárias de Lúcia complementarão o meu dia a dia, a revista que ainda procuro editar. Não esquecendo que à noite sempre haverá NETFLIX para acompanhar e um chocolatinho para minha boca adoçar.

Novo cenário se está desenhando. Um novo começo que dá sentido às lutas. Mesmo que sejam pequenas e individuais, mas, nas quais me faço presente. Com elas, sinto-me jovem e disposto.

*Abraham Benzaquen Sicsu, é aposentado como professor da UFPE e como pesquisador da FUNDAJ, Ex-Presidente do Instituto Tecnológico de Pernambuco e da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e Acadêmico da APC.